Pastorais
A IDOLATRIA DA PÓS-VERDADE

6 de dezembro de 2019

A revolução virtual possibilitou o acesso a uma infinidade de conteúdos. As informações se sobrepõem e podem ser adquiridas instantaneamente sem qualquer necessidade de reflexão. O cérebro absorve os retalhos de notícias que, por vezes, reforçam os posicionamentos conceituais, religiosos, políticos e ideológicos. As opiniões divergentes são descartadas ou utilizadas para alimentar polêmicas improdutivas. A avaliação sistemática, inquiridora e profunda não encontra muitos adeptos neste cenário de conhecimento superficial e horizontal.

As mídias sociais refletem o pensamento de uma época que banaliza a verdade, o sagrado e a coerência. Os temas abordados dispensam o exame acurado e se sustentam através de defesas apaixonadas e desprovidas de bom senso. O império da vontade pessoal se estabeleceu! O desejo de indivíduos ou de grupos é suficiente para a manutenção de uma causa que afronta a lógica, a tradição histórica e as crenças milenares. A simples vontade é suficiente para justificar qualquer conceito e prática neste contexto de implosão moral e racional.

Este confuso e contraditório cenário se estabelece a partir de um movimento social denominado por Steve Tesich de pós-verdade. A Universidade de Oxford escolheu o termo pós-verdade como a palavra do ano de 2016. A ideia é que os apelos emocionais e as crenças pessoais são mais influentes para moldar a opinião pública do que os fatos objetivos. Ao explicar a pós-verdade, Leandro Karnal diz que existe hoje uma seleção afetiva de identidade, ou seja, o indivíduo acredita, acolhe e divulga apenas as informações que fazem parte do seu repertório de valores pessoais, independente de ser verdade ou não.

A energia, o esforço intelectual e o tempo são desperdiçados quando Deus é ignorado nas reflexões sobre crenças, valores e atitudes de uma época. Nesta perspectiva, a pós-verdade precisa ser observada à luz das Sagradas Escrituras. O homem possui uma busca obsessiva por qualquer elemento ou conteúdo capaz de suprir a sua idolatria. A pós-verdade denuncia que a ênfase idólatra atual não está mais na religião (idade média), na razão (iluminismo) e nem mesmo na verdade relativa (pós-modernismo). O ídolo da pós-verdade se estabelece a partir do vínculo afetivo descomprometido com a verdade e com os fatos. Esse deus falso precisa ser nutrido e defendido a qualquer custo, afinal, é fraco, ilusório e mentiroso como todos os que lhe antecede.

A Bíblia diz que o Deus verdadeiro não se submete aos modismos das eras, pelo contrário, Ele reina soberanamente e governa sobre terra e céus (At 4.24-31). A sua vontade é cumprida e os seus desígnios estabelecidos com precisão (Ef 1.3-14). Ele é a verdade e o seu povo foi separado para viver de acordo com os princípios claramente estabelecidos (Jo 1.17). Desta forma, os seguidores de Cristo são convocados a interpretar o contexto a partir das Sagradas Escrituras (2 Tm 3.16). O afeto, a vontade, a razão e a atitude estão comprometidos e submetidos ao senhorio de Jesus. Os conteúdos virtuais publicados, as conversas familiares e os embates ocasionais precisam ser direcionados pela verdade eterna. Os remidos em Cristo não podem utilizar os critérios da pós-verdade para expor suas posições acerca dos inúmeros temas discutidos nas redes sociais e também na sociedade.

Rev. Alexandre Rodrigues Sena

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