Pastorais
O PAPEL DA IGREJA NUM MUNDO DETERIORADO

6 de fevereiro de 2020

O ano de 2020 inicia com as recordações trágicas de janeiro de 2019 e também com adversidades lastimáveis. Os temporais em Minas Gerais e no Espírito Santo já provocaram a morte de dezenas de brasileiros e deixaram milhares de desabrigados. O vírus coronavirus se espalha e preanuncia que detê-lo não será uma tarefa fácil. A cidade do Rio de Janeiro experimenta o dissabor de uma água contaminada que atinge, indiscriminadamente, todos os seus moradores.

Estas tragédias são adicionadas à miséria que assola, maltrata e vilipendia cotidianamente grande parte da população brasileira. São milhões de desempregados, outros tantos sem acesso à saúde e mais uma multidão que não adquire ensino de qualidade. Um país com quase metade da sua população sem rede de esgoto reflete o descaso histórico com os menos favorecidos. Estes dados, muitas vezes, são inutilmente discutidos em salas climatizadas, bares requintados e anunciados na inerte mídia social.

A igreja de Cristo não foi chamada apenas para fazer parte do grupo de críticos que observa, opina e espera a ação de governantes e ONGs, abstendo-se de qualquer engajamento real e prático.  Após a narrativa do sermão do monte, o evangelista Mateus escreve: “Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor.” (Mt 9.36). O ministério de Cristo aponta o caminho para discípulos que desejam viver como o mestre diante dos maltratados, famintos e perdidos.

O primeiro ensino é acerca da visão. Quando a igreja se torna ensimesmada e tenta viver o céu num mundo em chamas está sendo negligente com o seu papel. É preciso observar o cenário e se atentar para a realidade do mundo caído. Em segundo lugar, Jesus apresenta uma reação que envolve mente e coração. O texto diz que ele se compadeceu, ou seja, o sofrimento “dos milhares” o afetou profundamente. A igreja é o recipiente para a manifestação do amor divino ao mundo trágico. A sensibilidade da igreja não pode estar em descompasso com a compaixão de Cristo.  Por último, é preciso agir assertivamente e, para isso, os movimentos precisam acompanhar as pegadas de Cristo.

Jesus caminhou na direção de homens e mulheres, ricos e pobres, adultos e crianças, piedosos e possessos, santos e pecadores. Ele alimentou o faminto, curou o enfermo, expulsou o demônio, consolou o que chorava, ressuscitou o morto e, principalmente, anunciou a salvação que produz a esperança da vida eterna. Cristo amou incansavelmente durante o seu ministério e o ápice deste amor foi manifestado com o sacrifício vicário. Ele ressuscitou e comissionou a igreja para continuar a tarefa de pregar as boas novas e socorrer os necessitados, assim como ele mesmo fez. Por isso, a igreja precisa manter-se firme na missão de espalhar o amor, a compaixão e a salvação de Cristo neste mundo petrificado, insensível e enfermo.

      Rev. Alexandre Rodrigues Sena

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