Pastorais
A PÓS-VERDADE AGRAVA A PANDEMIA

2 de maio de 2020

A pandemia extrapola a área da saúde e atinge outros campos como economia, educação, família, igreja e lazer. A chegada do Coronavírus desestabiliza também uma sociedade com profundas raízes no terreno da pós-verdade. Esta corrente filosófica implode as argumentações racionais e “empodera” as opiniões. É um termo usado para definir conteúdos desalinhados com os fatos, mas que atende a determinados interesses.

A ciência é frontalmente atacada pela pós-verdade. O descompromisso com a verdade objetiva, possibilita uma produção acadêmica subserviente aos valores pessoais e/ou ideológicos. A imparcialidade científica é ameaçada, afinal, a pressão para corresponder a interesses outros pode enviesar os resultados. O conteúdo desconectado com a realidade é legitimado a partir do momento que sustenta a opinião e o interesse de determinados grupos.

Na pós-verdade, primeiro é apresentado o resultado da tese e, posteriormente, organiza-se um emaranhado de argumentos desconexos e desprovidos de lógica para justificar, muitas vezes, o que é injustificável. O contra-argumento é ofensivo, produz rupturas nos relacionamentos e rivalidades incuráveis. Para Christian Dunker, na pós-verdade, a verdade é coadjuvante e sem potência transformadora.

A internet possibilita a incontrolável proliferação dessas pós-verdades. Os conteúdos mais variados são lançados na plataforma virtual e núcleos afins formados para defender as respectivas posições. Os campos de batalha são montados e uma guerra insana, apaixonada, inconsequente e interminável superaquece as redes sociais. Os posts carregam recortes que permitem várias interpretações do fato e, desta forma, a verdade se dissolve. A grande mídia não está imune e também pode se sujeitar às narrativas formadas por recortes convenientes.

A pós-verdade resgata a essência das seitas, onde qualquer questionamento abala todo o sistema nervoso do devoto. O vínculo afetivo com a “divindade” bloqueia a percepção quanto à realidade. A emoção que deveria ser canalizada para relacionamentos nobres como família e amigos é investida em tensões virtuais que não são dignas de tão elevada estima. Infelizmente, alguns “deuses” descobriram o poder e a influência que possuem.

Pelo menos dois mil anos atestam a estabilidade e a credibilidade das Escrituras. Por isso, é denominada Palavra de Deus, afinal, vem do alto céus e não se submete às contradições filosóficas que marcam as épocas. A Bíblia é a verdade divina revelada aos homens e orienta os crentes para uma vida na verdade. Enquanto a pós-verdade se propaga no escuro e na dúvida, a Palavra de Deus sempre se apresenta como luz que dissipa as trevas: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz para os meus caminhos” (Sl 119.105).

Na pós-verdade, qualquer um pode dizer “e conhecereis a verdade”, no entanto, a verdade que liberta é acessada apenas por aqueles que são restaurados por Cristo. Antes de João 8.32, Jesus diz: “Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos” (Jo 8.31). Os seguidores de Jesus não podem se submeter ao jogo promíscuo da pós-verdade, pelo contrário, permanecem na verdade: “Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno” (Mt 5.37). Desta forma, a obscuridade da pós-verdade tem a sua origem no império das trevas e os que foram chamados para ser a luz do mundo precisam manter distancia dela.

Rev. Alexandre Rodrigues Sena

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