Pastorais
CONSAGRAÇÃO COMPLETA

16 de outubro de 2020

O ateniense Sócrates (469-399 a.C.) é reconhecido como um dos maiores filósofos ocidentais. A elevada produção de perguntas acompanhada por uma busca inquietante de respostas produziu o rebuscado método dialético. A frase “Só sei que nada sei” é atribuída a Sócrates. De acordo com Rebeca Fuks, talvez ele não tenha proferido exatamente estas palavras, mas este conteúdo é compatível com as ideias que propagava. O objetivo não é desestimular o pensamento, mas ressaltar que o exercício intenso da cognição aguçará a percepção do universo desconhecido e inacessível.

Ao expor sobre a vaidade da sabedoria, Salomão argumenta que, assim como a luz é mais proveitosa que as trevas, a sabedoria também se sobrepõe à insensatez. No entanto, o tempo é capaz de ofuscar o brilho da sabedoria e tornar esquecida toda produção acadêmica de um indivíduo: “Ah, morre o sábio, e da mesma sorte, o estulto”. (Ec 2.17). Enquanto a morte não cumpre o papel de “igualar” sábios e tolos, a sabedoria segue em vantagem. Por isso, assim como Sócrates, os verdadeiros intelectuais e cientistas precisam reconhecer que nada sabem diante de inalcançáveis mistérios.

Se a orientação acima está focada no trato com o intelecto, o que dizer dos religiosos que se utilizam dos elementos espirituais para acariciar seus egos inflados? Como lidar com os que se aproveitam da sombra da cruz para construir seus próprios castelos? Jesus foi implacável com os líderes religiosos que se utilizavam dos ensinos bíblicos para a autopromoção. Em Mateus 23, o Senhor adverte os escribas e fariseus por elaborarem uma narrativa teológica com o objetivo de elevá-los sobre os demais.

Os verdadeiros discípulos de Cristo são convidados pelo mestre a negar a si mesmo, tomar a cruz e segui-lo (Lc 9.23). De acordo com Hendriksen, negar-se a si mesmo significa “afastar-se não só dos pensamentos e hábitos claramente pecaminosos, mas inclusive da confiança nas ideias ´religiosas´ que não podem harmonizar-se com a confiança em Cristo.” Os seguidores de Cristo são convocados não apenas para destronar o “eu”, mas também para mortificar a própria carne, afinal, fomos sepultados com Cristo na morte pelo batismo (Rm 6.4). Ao comentar esse texto, Calvino escreve: “O batismo significa que, ao sermos mortos para nós mesmos, nos tornamos novas criaturas”.

A carne sempre vai reagir com urros e berros ao senhorio de Cristo e somente pelo poder do Espírito o cristão obtém a vitória. Por isso, o apóstolo Paulo escreve: “Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer.” (Gl 5.17). A vida cristã não exige uma humilhação intelectual com um fim em si mesma, mas ao contrário, o chamado ao discipulado requer uma consagração da mente, da vontade, da emoção, do corpo, enfim, de todo o ser ao único que concede vida eterna, Jesus Cristo.

Rev. Alexandre Rodrigues Sena

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