Pastorais
Emoções Religiosas

1 de agosto de 2013

A cultura religiosa tem um poder avassalador na construção psicoemocional do indivíduo. O que aconteceu no Rio de Janeiro foi uma prova irrefutável desta tese. Milhares de católicos romanos, especialmente jovens, se reuniram para ouvir as diretrizes daquele que consideram ser o líder maior da crença que professam. Enérgicos, animados e em alguns momentos eufóricos, expressavam uma fé capaz de mover montanhas. Tudo lindo, arrebatador e com fortes tons de revolução espiritual.

No entanto, o papa Francisco retomou aos seus afazeres no Vaticano, o imponente palco já está desmontado, os peregrinos regressaram para os seus lares e a praia de Copacabana voltou à sua rotina de recepcionar os turistas que buscam apenas sua exuberância natural. Em outras palavras, o espetáculo acabou! Restou apenas o registro de um momento marcante para o catolicismo no país.

Na igreja evangélica não acontece diferente. Congressos, shows gospel, retiros e tantos outros eventos podem produzir emoções profundas, sentimentos intensos, mas completamente desprovidos de uma ação real e eficaz do Espírito de Deus.  As pessoas alteram suas sensações em diversas circunstâncias e isto, necessariamente, não significa uma manifestação divina.

A entrada do pecado deteriorou as emoções e as intenções do coração humano. Sob a ordem de Arão, as mulheres de Israel tiraram as argolas de ouro das orelhas para construírem o bezerro de ouro que seria adorado. O povo madrugou para oferecer holocausto, ofertou, comeu, bebeu e se divertiu diante daquele ídolo (Ex 32.1-6). Este ato pecaminoso, certamente, foi marcado por fortes doses de empolgação e alegria. O mesmo aconteceu com os judeus religiosos que manobraram as multidões para esbravejarem diante de Pilatos que Jesus Cristo deveria ser crucificado (Marcos 15.13,14).

É evidente que o evangelho verdadeiro também altera as emoções. Certamente, Zaqueu celebrou quando Cristo disse que ele também era filho de Abraão (Lc 19.9).  Com toda probabilidade, Maria e Marta também se impressionaram quando viram Lázaro atendendo ao convide do Mestre para sair do túmulo. A diferença é que a verdadeira fé cristã atinge a integralidade do indivíduo, ou seja; vontade, razão e emoção, como escreveu Blaise Pascal. Estes três elementos não podem desalinhar, precisam estar apontados para a glória de Cristo e isso acontece somente com o poder santificador do Espírito Santo. Por isso, cuidado com as fortes emoções religiosas que não promovem mudanças na razão e na vontade. Fique atento também às deduções religiosas racionais que desprezam as emoções.

As emoções precisam produzir amor a tudo o que o Senhor ama e ódio a tudo o que Ele odeia. É incoerente se derramar nos grandes eventos religiosos e permanecer numa vida de prazer no pecado. Deus conhece os corações e identifica se as lágrimas que escorrem dos olhos são de verdadeiros adoradores que andam pelo estreito e difícil caminho ou de idólatras egocêntricos que andam pela espaçosa estrada para receber apenas mais uma overdose de emoção religiosa.

 

Rev. Alexandre Sena

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