Pastorais
LIBERDADE PARA AMAR

4 de setembro de 2020

Uma das maravilhas da fé cristã é a profundidade e a consistência do conceito de liberdade. A expiação de Cristo retira qualquer dívida do homem para com Deus e concede salvação a todo aquele que crê. Este processo não exige retribuição ou qualquer outra forma de compensação por uma razão simples: o homem não tem condições de pagar! A liberdade em Cristo repousa na teologia da graça, ou seja, o favor imerecido de Deus aos que experimentaram a redenção.

A dinâmica espiritual em que o fiel faz algo para receber um benefício em troca está fundamentada numa barganha mesquinha e frustrante. O raciocínio é monetário pois, o indivíduo acumula créditos com suas boas obras para sacar oportunamente como dádivas divinas. Se as preces não são atendidas, Deus é, velada ou explicitamente, acusado de mau pagador.
Paulo escreve aos gálatas que qualquer obra, seja obediência à lei ou circuncisão com o propósito de “contribuir” para a redenção, ignora a graça divina e produz escravidão: “Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor” Gl 5:6. Aos efésios, o apóstolo afirma: “8 Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; 9 não de obras, para que ninguém se glorie.”

A estrutura da fé cristã está alicerçada no amor incondicional de Deus. Este princípio é fundamental para a compreensão de liberdade. O discípulo de Cristo está livre tanto do peso condenatório do pecado como da opressora e ineficiente penitência pela salvação divina. O amor gracioso que liberta é um convite estendido a todo cansado e oprimido (Mt 11.28).

Após experimentar este amor libertador que afeta mente, emoção e vontade, o discípulo de Cristo é convidado a viver de acordo com a lei divina e também a produzir boas obras. No entanto, já pertence à família celestial, já é cidadão do Reino e este exercício é uma consequência prazerosa de quem procura amar a Deus sobre todas as coisas. A obediência não é para salvação, mas, o resultado da mesma.

A estrutura libertadora do amor de Deus deve regular todas as interações dos seus filhos. Por isso, Cristo ensina a amar a Deus sobre todas as coisas (Lc.10.27) e uns aos outros da mesma forma que Ele nos amou (Jo15.12). O amor de Deus que liberta o seu povo é o mesmo amor que produzirá relações saudáveis na família, na igreja e no trabalho.

Os relacionamentos que geram aprisionamento, sentimento de dívida, maus-tratos e que subestimam e desprezam o próximo não estão enraizados no amor que vem de Deus. O apóstolo Pedro escreve sobre a importância de tratar a todos com honra: “Tratai todos com honra, amai os irmãos, temei a Deus, honrai o rei.” Viver o amor que liberta é possível apenas quando nutridos pelo Criador.

O amor que nasce do próprio coração está contaminado pelo egoísmo, pela conveniência e pelo sentimento de que todos estão devendo algo. A célebre frase é insuportavelmente alimentada: “Quando precisou, eu ajudei! Agora!?”. O amor que liberta tem as suas ações depositadas diante do altar de Deus, afinal, somente Ele é digno de toda honra, glória e louvor!

Rev. Alexandre Rodrigues Sena

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