Pastorais
O DESAFIO DA MATURIDADE

23 de julho de 2014

Através da imaginação, o ser humano é capaz de visitar o passado, caminhar no futuro, transitar por lugares inusitados, adquirir fortunas e devagar numa órbita completamente paralela aos fatos. Não há período mais fértil para este exercício que a infância. Os pequeninos se tornam heróis e princesas, visitam castelos, dialogam com seus bonecos e mergulham num encantado mundo da fantasia.

À medida que a vida adulta se estabelece, a realidade se impõe soberana e friamente, repetindo categoricamente: “o mundo não é bem assim!”. O convite agora é para enxergar um cenário implacável e cruel, onde muitos que deveriam ser heróis são bandidos e as princesas se tornam escravas da estética. Assombrados com este quadro, não são poucos os jovens e adultos que preferem limitar suas mentes ao suave universo infantil, com um playground digital e tecnológico à sua disposição, mantendo-os presos à fantástica e imaginária terra do nunca.

Os desafios do presente carecem de indivíduos estruturados e preparados para lidar com as demandas do seu tempo. Imaginar e sonhar faz parte deste processo, mas trancafiar-se numa bolha ilusória gera indivíduos regredidos e frágeis.

O caminho do desenvolvimento espiritual não é diferente. A imaginação é um elemento essencial para meditar nas histórias e ensinamentos das Escrituras. Ninguém consegue ler a Bíblia sem utilizar-se desse recurso. É preciso construir na mente os locais, os cenários e os personagens das narrativas bíblicas. Não é possível participar da ceia sem imaginar o calvário e tudo o que aconteceu. Por isso, Tereza de Ávila escreveu: “Já que não conseguia entendimento, planejei, por meio da imaginação, retratar Cristo dentro de mim”.

Por outro lado, os discípulos de Cristo correm o risco infantilizar suas consciências espirituais, reagindo de maneira mimada, frágil e lúdica diante de um cenário que a Bíblia coloca como sendo de guerra. Tendem a imaginar a igreja mais como um espaço para entreter e massagear o ego do que um quartel general que se organiza e capacita os soldados para enfrentar com maturidade, resistência e bravura uma luta travada contra inimigos vorazes que desejam devorar suas almas (Ef 6.12).

A igreja deve ter espaço e paciência com os recém-convertidos e imaturos na fé. Mas é um sobrepeso quando o progresso espiritual não acontece na vida daqueles que se arrastam por anos com suas birras para chamar a atenção e receber bajulação. Paulo convoca a igreja de Corinto para encarar a maturidade e deixar as coisas pueris de lado: “Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, e sim como a carnais, como a crianças em Cristo” (I Co 3.1). O autor de Hebreus faz o mesmo na sua epístola: “Ora, todo aquele que se alimenta de leite, é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança.” (Hb 5.13).

Rogue ao Espírito Santo para que apague as imaginações ilusórias e traiçoeiras que impedem o desenvolvimento da salvação (Fp 2.12). Não se torne pedra de tropeço aos que estão firmes e concentrados no combate, mas ao contrário, some-se a eles na árdua e grandiosa tarefa de expandir o Reino de Deus, levar a mensagem de salvação e testemunhar com os atos a transformação diária promovida pelo Espírito Santo.

Rev. Alexandre Rodrigues Sena

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